Gloria Steinem, a indissociável figura que moldou os últimos 50 anos da história, faleceu nesta quinta-feira, 3 de setembro de 2026, aos 92 anos, deixando um legado monumental para a libertação feminina e o ativismo global. Sua influência, que se estendeu desde a efervescente década de 1970 até os movimentos sociais mais recentes, transcende sua obra como escritora e ativista, sendo perpetuada de forma notável através de múltiplas interpretações ficcionais no cinema e na televisão. A notícia de sua partida ressoa como um lembrete da profundidade de sua contribuição, que continuará a inspirar gerações de mulheres muito além de sua existência física.
Steinem não foi apenas uma voz; ela foi um catalisador para a mudança, uma pensadora cuja obra, como o aclamado livro “Minha Vida na Estrada”, e seus incontáveis discursos, serviram como bússolas para milhões. Contudo, a riqueza de sua memória é igualmente preservada e amplificada pelos retratos que ganhou na ficção, permitindo que diferentes facetas de sua vida e luta sejam exploradas e compreendidas por um público ainda mais vasto. Essas representações artísticas não são meros tributos, mas extensões de sua própria narrativa, garantindo que a complexidade de sua jornada seja acessada e reavaliada continuamente.
As Múltiplas Faces de um Ícone: “As Vidas de Gloria”
Entre as mais notáveis homenagens cinematográficas, destaca-se a cinebiografia “As Vidas de Gloria”, lançada em 2020 e dirigida pela renomada Julie Taymor. Este filme singular empreendeu a ambiciosa tarefa de traçar a trajetória de Steinem desde sua infância nos anos 1940 até momentos cruciais de seu ativismo mais recente. A obra é particularmente notável por escalar duas atrizes vencedoras do Oscar para interpretar diferentes fases da ativista, uma escolha que sublinha a profundidade e a evolução de sua persona pública e privada.
O filme não se limita a um período específico, mas oferece um panorama abrangente, mostrando a formação de suas convicções e sua atuação em eventos históricos. Desde as origens de sua consciência social até o apoio explícito a Hillary Clinton na eleição presidencial americana de 2016 e sua participação vibrante na Marcha das Mulheres de 2017, “As Vidas de Gloria” serve como um documento visual da persistência e adaptabilidade de seu engajamento. A disponibilidade do filme no canal Sony One do Amazon Prime Video garante que sua história continue acessível, permitindo que novas audiências descubram a amplitude de sua influência. A representação de sua vida em diferentes estágios, por atrizes de calibre, não apenas honra sua complexidade, mas também permite uma identificação mais profunda com as diversas fases de sua luta e evolução pessoal.
O Contexto da Revolução: Gloria Steinem em “Mrs. America”
Outra representação crucial da vida de Gloria Steinem na ficção veio com a excelente série “Mrs. America”, também lançada em 2020 e disponível no Disney+. Nesta produção, a atriz australiana, conhecida por seu papel em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria” (2025), encarnou Steinem, oferecendo uma perspectiva detalhada sobre o panorama da revolução sexual e o desenvolvimento do feminismo ao longo dos anos 1970. A série é um mergulho profundo no conflito ideológico da época, retratando a oposição entre a ativista conservadora Phyllis Schlafly e as diversas lideranças da esquerda feminista, entre elas Steinem e Shirley Chisholm.
“Mrs. America” destaca o papel fundamental de Steinem na criação da revolucionária Ms. Magazine, uma publicação que se tornou um pilar para o movimento feminista. A interpretação da atriz é descrita com magnetismo, e ela brilha especialmente no oitavo episódio, onde sua personagem é responsável por inspirar uma dona de casa reprimida, vivida por Sarah Paulson, a reavaliar seu estilo de vida e buscar sua própria libertação. Este episódio, em particular, ilustra a capacidade de Steinem de conectar-se com mulheres em diferentes contextos, oferecendo uma visão de empoderamento que transcende as barreiras sociais e pessoais. A série, ao contextualizar sua luta dentro de um período tão transformador, solidifica a compreensão de Steinem não apenas como uma figura isolada, mas como parte integrante de um movimento coletivo e complexo.
A Ativista que Interpretou a Si Mesma: Autenticidade e Engajamento
Além das interpretações ficcionais, Gloria Steinem demonstrou um engajamento notável com sua própria imagem e legado, aceitando múltiplos convites para interpretar a si mesma em diversos projetos ao longo dos anos. Essa disposição em participar diretamente de narrativas que a retratavam adiciona uma camada de autenticidade e continuidade à sua presença na cultura popular. Sua aparição, mesmo que breve, em “As Vidas de Gloria”, é um testemunho de sua aprovação e envolvimento com a representação de sua própria história.
Mais do que isso, Steinem atuou como uma espécie de guia e mentora para mulheres em crise em comédias e séries de televisão. Em “O Clube das Desquitadas”, de 1996, ela já oferecia sua sabedoria, e, mais recentemente, na série “And Just Like That”, a continuação de “Sex and the City”, ela desempenhou um papel significativo. Nesta última, a ativista auxilia Carrie Bradshaw (interpretada por Sarah Jessica Parker) a aceitar o processo de envelhecimento, abordando um tema universal com a mesma sensibilidade e perspicácia que marcou toda a sua carreira. Essas aparições não apenas mantiveram Steinem relevante para novas gerações, mas também reforçaram sua imagem como uma figura acessível e empática, sempre pronta a oferecer conselhos e inspiração para as mulheres em suas jornadas pessoais. Sua capacidade de transitar entre o ativismo político e a cultura pop, sempre com uma mensagem de empoderamento, é um dos pilares de seu legado duradouro.
A morte de Gloria Steinem marca o fim de uma era, mas o impacto de sua vida e obra está longe de se dissipar. As múltiplas representações em tela, tanto por atrizes consagradas quanto por ela mesma, asseguram que sua voz e sua luta por um mundo mais justo e igualitário continuarão a ecoar. Ela não apenas viveu uma vida extraordinária, mas também permitiu que sua história fosse contada e recontada, garantindo que a chama da libertação feminina que ela acendeu permaneça acesa para as futuras gerações. Seu legado é um testemunho do poder da persistência, da escrita e da representação na construção de um futuro mais equitativo.