A Polícia Federal (PF) revelou uma fotografia que coloca o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em uma situação delicada ao lado de Daniel Vorcaro, o influente dono do Banco Master. A imagem, encontrada no celular de Vorcaro durante uma investigação, mostra Gonet fumando um charuto em uma confraternização em Londres, ocorrida em abril de 2024, levantando questionamentos sobre a natureza da relação entre uma das mais altas autoridades do Ministério Público e um banqueiro cujas atividades são alvo de apuração. A revelação, que veio à tona em 19 de setembro de 2026, intensifica a crise institucional e aprofunda as investigações sobre o chamado “Caso Master”, que já reverberam nos mais altos escalões do Judiciário brasileiro.
A fotografia, cuja autenticidade foi confirmada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), mas sem comentários sobre seu conteúdo, captura um momento de descontração. Nela, Gonet aparece com um charuto em mãos, enquanto copos de uísque repousam sobre a mesa, ao lado de Vorcaro. Este registro visual contradiz, ou ao menos complexifica, a narrativa de Gonet, que tem sustentado publicamente não manter relação de amizade ou proximidade com o banqueiro. O procurador-geral já havia afirmado que o encontro em Londres foi o único presencial com Vorcaro, classificando-o como “brevíssimo e banal” e ocorrido na presença de diversas outras autoridades. A imagem, no entanto, adiciona um elemento concreto e irrefutável à discussão sobre a natureza desse contato.
A descoberta da imagem se deu no âmbito das mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal. Em 19 de junho de 2025, Ciro Soares, ex-advogado do Banco Master, encaminhou a fotografia ao banqueiro acompanhada de uma mensagem curta e enigmática: “PG me mandou”. As iniciais “PG” são atribuídas a Paulo Gonet, sugerindo uma origem direta da imagem do próprio procurador-geral para o advogado, que então a repassou a Vorcaro. Embora o material da investigação não detalhe as circunstâncias exatas de como a fotografia chegou a Soares, a cadeia de envio levanta sérias dúvidas sobre a alegada distância entre Gonet e o círculo do Banco Master.
Além da Foto: Mensagens que Aprofundam a Trama
A investigação da PF não se limita à fotografia. O material extraído do celular de Vorcaro contém outras referências a Paulo Gonet em conversas entre Ciro Soares e o banqueiro, que pintam um quadro de interação mais frequente e informal do que o admitido pelo procurador-geral. Em uma dessas trocas, Gonet teria manifestado interesse em participar da segunda edição de um fórum jurídico patrocinado pelo Banco Master em Londres, evento previsto para 2025 e posteriormente cancelado. A mensagem atribuída a Gonet por Soares é ainda mais reveladora: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”, fazendo alusão direta aos elementos presentes na fotografia.
Em outro trecho das conversas, Soares encaminha a Vorcaro uma mensagem que também atribui ao procurador-geral, expressando “saudades” do banqueiro. A atribuição dessas mensagens a Gonet, feita por Soares nas conversas obtidas pela investigação, sugere um nível de familiaridade e desejo de reencontro que contrasta fortemente com a descrição de um contato “brevíssimo e banal”. O papel de Ciro Soares como intermediário nessas tratativas e nos contatos com o procurador-geral é um ponto central da apuração, que busca desvendar as circunstâncias desses episódios e eventuais relações entre pessoas ligadas ao Banco Master e autoridades públicas.
O Envolvimento Familiar e a Repercussão no STF
A complexidade da teia de relações se estende ao âmbito familiar. As conversas entre Soares e Vorcaro também contêm referências a uma viagem do filho de Gonet para Londres, com Soares atuando como intermediário nas tratativas. Embora os detalhes e a natureza dessa intermediação ainda estejam sob análise da investigação, a menção a um familiar direto do procurador-geral em conversas com o banqueiro e seu advogado adiciona mais uma camada de proximidade que a defesa de Gonet tem se esforçado para desmentir.
A publicidade dessas conversas e da fotografia ocorreu após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgar um relatório da Polícia Federal que fazia referências a Gonet e a outras autoridades. A questão foi levada por Mendonça ao presidente do STF, Edson Fachin, e posteriormente ao plenário da corte, onde a discussão foi interrompida por um pedido de vista do ministro Flávio Dino. Este trâmite no STF eleva o caso a um patamar de debate institucional, com implicações para a credibilidade da PGR e para a própria dinâmica do sistema de Justiça.
A Defesa de Gonet e os Questionamentos Processuais
Diante da repercussão, Paulo Gonet tem questionado a validade do relatório da PF. Sua argumentação central é que o documento teria sido produzido por determinação de Mendonça sem provocação prévia do Ministério Público ou da própria Polícia Federal, o que, segundo ele, configuraria uma irregularidade processual. Gonet também sustenta que medidas investigativas envolvendo integrantes do Supremo Tribunal Federal precisam observar regras específicas de autorização da corte, o que, em sua visão, não teria ocorrido neste caso. Essa linha de defesa busca desqualificar a prova e o procedimento que a trouxe à luz, desviando o foco do conteúdo das revelações para a forma como foram obtidas.
A existência das mensagens e da fotografia, por si só, não representa comprovação de irregularidade praticada por Gonet, como o próprio material da PF ressalta. No entanto, o novo registro visual, somado ao conjunto de mensagens já reveladas pela investigação do Caso Master, adiciona um elemento de peso ao cenário. A imagem de Paulo Gonet e Daniel Vorcaro juntos em Londres, em um ambiente de confraternização com charuto e uísque, confronta diretamente as declarações do procurador-geral sobre a natureza de sua relação com o banqueiro. A investigação continua a analisar as circunstâncias desses episódios e as eventuais relações entre pessoas ligadas ao Banco Master e autoridades públicas, em um caso que promete novos desdobramentos e um intenso debate sobre ética, transparência e os limites das relações entre o poder público e o setor privado.