Uma intrincada rede de negócios e influências, revelada por mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, aponta para o ex-senador Chiquinho Feitosa (Republicanos) como peça central em um esquema que envolveria pagamentos mensais vultosos e a tentativa de aproximação do banqueiro com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. As investigações, que vieram à tona em 2026, detalham eventos ocorridos entre outubro de 2023 e agosto de 2025, expondo supostas práticas de lavagem de dinheiro e tráfico de influência que alcançaram os mais altos escalões do poder legislativo e judiciário brasileiro.
A apuração da PF, que se tornou pública em 2026, desvendou uma série de transações financeiras e comunicações que ligam Feitosa, irmão de Guiomar Feitosa, ex-esposa do ministro Gilmar Mendes, ao universo de Daniel Vorcaro. O ex-parlamentar mantinha um contrato de R$ 500 mil por mês com a Super Empreendimentos, uma das empresas da rede de Vorcaro que está sob suspeita de lavagem de dinheiro. A existência desse vínculo financeiro foi confirmada por registros internos do grupo do banqueiro.
Em 2 de outubro de 2024, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e figura-chave nas operações financeiras do grupo, enviou ao banqueiro uma lista de compromissos financeiros. Entre os itens, destacava-se a menção: “500K – F&A Super valor mensal (Chiquinho)”. Questionado pelo jornal Estado de São Paulo, Chiquinho Feitosa admitiu a existência do negócio, mas alegou que a contratação ocorreu por um “curto período de tempo” e que, na época, a empresa não era alvo de quaisquer suspeitas ou investigações.
A relação entre Feitosa e Vorcaro não se limitava apenas a contratos financeiros. Mensagens obtidas pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, indicam que o ex-senador atuou como um facilitador para que o banqueiro se aproximasse do ministro Gilmar Mendes. Oito dias após uma reunião crucial entre Vorcaro e Mendes, Feitosa reforçou a importância dessa conexão em uma mensagem ao banqueiro: “Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro! Ele é um grande sujeito com grande caráter e um grande amigo”. Essa comunicação sugere uma intenção clara de estabelecer um canal direto de influência.
A Reunião no STF e a Defesa do Ministro
A aproximação culminou em um encontro entre Daniel Vorcaro e o ministro Gilmar Mendes em 11 de abril de 2024. A reunião, conforme a Folha de São Paulo, teria ocorrido no gabinete do decano do Supremo, onde Vorcaro supostamente pediu um voto favorável em uma causa bilionária que o beneficiaria diretamente.
Em resposta às alegações, o ministro Gilmar Mendes divulgou uma nota oficial, na qual afirma que a reunião ocorreu em ambiente institucional, na sede do Tribunal, e contou com a presença de advogados do Banco Master. Ele enfatizou que o recebimento de advogados em audiência é uma prerrogativa assegurada pela Lei 8.906/1994. Na ocasião, o tema discutido foi uma causa do setor sucroalcooleiro – o ARE 1327995, de relatoria do Ministro Edson Fachin, envolvendo a Destilaria Alcídia S/A.
Mendes detalhou seu histórico de votações nos processos relacionados ao Banco Master e ao setor sucroalcooleiro, afirmando ter votado consistentemente contra os interesses do banqueiro. No ARE 1327995, julgado pela Segunda Turma em 3 de junho de 2025, o ministro votou contra o pagamento do precatório, alinhando-se à União, mas ficou vencido. Da mesma forma, em outros casos como o ARE 1312127 (Raízen), ARE 1392660 (Jalles Machado) e ARE 1500251 (Raízen), Mendes votou contra os interesses das empresas ligadas ao setor ou pediu destaque para interromper julgamentos que se encaminhavam a favor delas. Na STP 976-ED, votou em todas as sessões contra a liberação de um precatório de mais de R$ 5 bilhões. O ministro concluiu sua defesa reiterando que em nenhum desses processos votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem, inclusive após a audiência mencionada. Ele também afirmou não ter tido conhecimento de qualquer tratativa entre Feitosa e Vorcaro, não ter sido procurado por Feitosa sobre os assuntos mencionados e não responder por relações privadas ou profissionais de ex-parente.
Envolvimento de Ciro Nogueira e Projetos de Lei
A teia de conexões se estende ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), que também é citado nas investigações. Nogueira é acusado de atuar em favor do Banco Master no Congresso Nacional em troca de benefícios como dinheiro, viagens internacionais e hospedagens em hotéis de luxo. A dimensão dos pagamentos a figuras políticas é evidenciada em uma “Lista dos Pagamentos Pendentes” enviada por Zettel em 2 de janeiro de 2025, que previa R$ 500 mil para “FA (Chiquinho)”. Oito dias depois, uma nova lista incluía a menção a R$ 1,4 milhão para Ciro e R$ 1 milhão para “FA (Chiquinho) – Dez/Jan”, indicando a continuidade e o aumento dos valores.
Um ponto crucial da investigação é o Projeto de Lei Nº 412/2022, de autoria de Chiquinho Feitosa, que trata da regulamentação do mercado de carbono – um tema de grande interesse para Daniel Vorcaro. O trajeto desse projeto é peculiar: ele saiu da residência de Ciro Nogueira, no Lago Sul, e chegou às mãos de Vorcaro por meio de seu motorista. Posteriormente, o material foi levado a outro endereço. Quatro dias depois, dois documentos identificados como “PL 5174.2023” e “PL 412.2022” foram entregues no Anexo I do Senado a Victor Freitas, assessor de Ciro Nogueira. Inicialmente, esses documentos estavam em envelopes do Banco Master, mas Vorcaro ordenou que fossem substituídos por envelopes brancos antes da entrega, um detalhe que levanta suspeitas sobre a intenção de ocultar a origem do material.
Contudo, a matéria legislativa já havia sido remetida pelo Senado à Câmara dos Deputados em 18 de outubro de 2023. Os documentos analisados até o momento não esclarecem qual era a finalidade da circulação desse material no mês seguinte, nem apontam a participação direta de Chiquinho Feitosa nesse episódio específico da troca de envelopes.
O Cenário Atual e as Repercussões
As revelações da Polícia Federal pintam um quadro de complexas relações entre o poder econômico e o poder político, com indícios de tentativas de manipulação legislativa e judicial. A Gazeta do Povo tentou contato com Chiquinho Feitosa por meio de uma de suas empresas, a FF Participações, e de seu filho, Francisco Feitosa Filho. O espaço segue aberto para manifestação do ex-senador.
Este caso sublinha a constante vigilância necessária sobre as intersecções entre grandes grupos financeiros e figuras políticas de alto escalão, especialmente quando há suspeitas de que interesses privados possam estar buscando influenciar decisões que afetam o conjunto da sociedade brasileira. A investigação prossegue, e novas informações podem surgir à medida que a Polícia Federal aprofunda a análise das mensagens e documentos.