Neste domingo, 13 de setembro de 2026, o Palco Sunset do Rock in Rio foi palco de uma das performances mais conceitualmente ricas do festival, protagonizada pela cantora mineira Marina Sena. Sua apresentação não apenas encantou o público com sua música, mas também provocou uma profunda reflexão cultural através de um projeto de figurino meticulosamente elaborado, que revisitou e entrelaçou influências indígenas, africanas e europeias, propondo um diálogo visual sobre a complexa formação da identidade brasileira.
A escolha de Marina Sena por um projeto de indumentária que transcende a mera vestimenta de palco para se tornar uma declaração artística é um testemunho de sua visão como performer. Em um dos maiores festivais de música do mundo, a artista optou por usar sua plataforma para explorar as raízes multifacetadas do Brasil. Os figurinos apresentados combinavam uma rica tapeçaria de materiais e referências, incluindo a delicadeza da renda, a organicidade dos tecidos naturais, a robustez do couro, a leveza das penas, o brilho dos metais, a maleabilidade da cera e outros elementos orgânicos. Essa paleta material não foi escolhida ao acaso; cada componente serviu como um vetor para narrativas históricas e culturais.
As referências incorporadas nos trajes de Marina Sena foram vastas e profundamente enraizadas na cultura brasileira e global. Elas evocaram as tradições religiosas populares, que permeiam o cotidiano e o imaginário coletivo do país, as lendas folclóricas regionais, que contam histórias de um Brasil místico e diverso, e os trajes cerimoniais, que carregam o peso da ancestralidade e do ritual. Paralelamente, a alfaiataria histórica europeia foi integrada, criando uma tensão e um contraste que sublinham a complexidade da miscigenação. Este trabalho de design de figurino, portanto, não se limitou a adornar a artista, mas a refletir sobre o próprio processo de formação cultural do Brasil e, crucialmente, sobre as contradições inerentes a essa miscigenação. É uma celebração da fusão, mas também um questionamento das tensões que dela emergem.
A equipe da artista explicou que as indumentárias foram imaginadas como algo “herdado”, sugerindo que a cultura e a identidade são legados transmitidos através das gerações, carregando consigo memórias e significados. Essa memória, por sua vez, é transposta para o campo da performance por meio da “figura exagerada da showgirl do século XX”. Essa escolha estética é particularmente perspicaz, pois a showgirl, com sua grandiosidade e espetáculo, serve como um veículo para explorar a tensão entre o sagrado e o mundano, o íntimo e o espetacular. A performance de Marina Sena, assim, tornou-se um palco para a dialética entre o humano e o hiper-humano, o divino, o heroico e o lúdico, convidando o público a uma experiência que vai além do entretenimento musical. A colaboração com Luís Lozano no palco adicionou outra camada à performance, enriquecendo a experiência sonora e visual.
A profundidade do conceito por trás do figurino de Marina Sena é um ponto de destaque em um festival que frequentemente celebra a moda como expressão individual. Ao invés de focar apenas na estética superficial, a cantora e sua equipe mergulharam em uma análise semiótica da vestimenta, transformando cada peça em um artefato cultural. A justaposição de elementos tão diversos – a renda europeia com penas indígenas, o couro africano com a alfaiataria clássica – não é apenas uma fusão visual, mas uma metáfora para a própria alma brasileira, forjada na confluência de povos e tradições. Essa abordagem séria e investigativa da moda como ferramenta narrativa eleva a performance de Marina Sena a um patamar de arte conceitual, onde o corpo e o vestuário se tornam telas para a discussão de temas complexos como identidade, colonização e resistência cultural.
Em um dia que marcou o encerramento do Rock in Rio 2026, com a Cidade do Rock fervilhando de celebridades e personalidades como Samira, Marina Ruy Barbosa, Lázaro Ramos e Taís Araújo, Gabriela Loran, Rafaela Mesquita, Jesus Luz, Vivi Wanderley, Kadu Moliterno, Cristianne Menezes, Fernanda Cristina (mãe de Vini Jr.) e Viviane Batidão, a performance de Marina Sena se destacou não apenas pela sua presença artística, mas pela mensagem intrínseca em sua estética. Enquanto outros artistas como Lola Young também emocionavam o público e Viviane Batidão fazia sua estreia com Joelma, o projeto de Marina Sena ofereceu uma camada adicional de significado, convidando à reflexão sobre o que significa ser brasileiro em um mundo globalizado.
A capacidade de uma artista pop de utilizar um palco de grande visibilidade para instigar um debate tão profundo sobre a identidade nacional, através de um elemento tão fundamental como o figurino, ressalta a potência da arte como ferramenta de questionamento e transformação social. Marina Sena, com sua performance e seu projeto de indumentária, não apenas cantou; ela teceu uma narrativa visual e conceitual que ecoa as complexidades e as belezas da formação cultural do Brasil, solidificando sua posição não apenas como uma voz musical, mas como uma artista com uma visão crítica e engajada. Sua apresentação no Palco Sunset, neste último dia de Rock in Rio 2026, será lembrada como um momento de arte que transcendeu o espetáculo para se tornar uma poderosa declaração cultural.