Gabriel Souza, vice-governador do Rio Grande do Sul e figura proeminente do MDB, emerge no cenário político gaúcho como um candidato ao governo do estado cuja trajetória é singularmente moldada por uma curiosidade insaciável, dedicação acadêmica multifacetada e uma constância inabalável. Desde sua infância em Tramandaí, passando por sua precoce imersão no movimento estudantil e sua ascensão na política do Rio Grande do Sul, Souza desafia as percepções convencionais, revelando uma personalidade complexa onde a timidez coexiste com a paixão por destrinchar dados e a profundidade intelectual, elementos que, segundo ele, são traços autênticos e não meras estratégias políticas na corrida pelo Palácio Piratini.
Aos 42 anos, Gabriel Souza, nascido em Tramandaí em 1984, carrega uma história que desmistifica a imagem do político tradicional. Sua capacidade de apresentar dados complexos sem recorrer a anotações e de conectar ações de áreas distintas, frequentemente colocando em xeque o conhecimento de seus oponentes, é vista por muitos como uma estratégia calculada. No entanto, para Souza, essa é uma manifestação genuína de sua personalidade. A curiosidade sobre tudo e a incessante vontade de esmiuçar os assuntos não se limitam ao jogo político, para o qual despertou cedo. Aos 13 anos, enquanto conciliava o trabalho como office-boy no escritório de contabilidade de seu pai em Tramandaí com os estudos no Colégio Cenecista, em Osório, ele já se interessava pelo movimento estudantil, marcando o início de sua jornada política.
Fora da arena política, essa mesma característica se manifesta em uma trajetória acadêmica notavelmente diversificada. Quantos médicos veterinários, após a graduação, optam por um mestrado em Direito Empresarial e Cidadania e, em seguida, engatam um doutorado em curso, com dupla titulação no Brasil e em Portugal, em Administração Pública? Essa é a realidade de Gabriel Souza, que, apesar de sua imersão na política, sempre nutriu um amor pela veterinária. “Sempre quis ser veterinário, gosto. Mas, por causa da política, muita gente acha que só me formei. Não sabe que abri negócio, tive consultório e mantive enquanto consegui conciliar”, revela. Essa busca por entender o “porquê” e o “quem não deixa” é uma constante em sua abordagem à gestão pública, onde sua paixão por destrinchar números, mesmo que abstratos em campanhas, reflete uma crença filosófica na capacidade humana de aprender sobre todas as coisas.
Apesar dos anos de discursos e eventos públicos, Souza admite que a timidez o acompanha. “Sou como meu pai. A mãe é que é extrovertida”, confessa, em um momento de descontração durante uma entrevista na Redenção, em Porto Alegre. O parque, mesmo em um dia frio e ventoso, não o incomoda, e ele traz para o encontro a cadela da família, Bibiana Terra, adotada recentemente após o luto pela perda de Anita Garibaldi, companheira de 13 anos de Gabriel e sua esposa, Talise. As homenagens a personagens de “O Tempo e o Vento” de Erico Verissimo e à revolucionária Anita Garibaldi, que se destacou na Revolução Farroupilha, revelam muito sobre a personalidade de Souza. Ele é um leitor dedicado de livros de papel, sejam romances, biografias ou tratados sobre a teoria do Estado, e nutre uma admiração particular pela história política do Rio Grande do Sul, atualmente imerso na biografia de Júlio de Castilhos, escrita por Sérgio da Costa Franco.
A Redenção, aliás, tem um significado especial em sua vida. Tendo se transferido para a Capital pela primeira vez aos 19 anos e dividido sua vida entre Porto Alegre e Tramandaí em vários períodos, Souza hoje tem o parque em sua rotina, morando na rua Santana, pertinho dali. É onde leva sua filha Dora, de 9 anos, para brincar. A predileção pelo local é antiga; quando ele e Talise decidiram morar juntos, escolheram um apartamento na Cidade Baixa, também para ficar perto da Redenção. A menção a Anita Garibaldi, Redenção e Cidade Baixa, em tom de brincadeira, levou à pergunta se ele seria um “esquerdista disfarçado”, o que rendeu boas gargalhadas. Souza, então, recorda sua militância na JR-8, a Juventude Revolucionária 8 de Outubro, braço do MR-8 de orientação marxista, que se abrigou no MDB durante a ditadura. Ele cita o filósofo Antonio Gramsci para analisar o momento de transformação da sociedade contemporânea e teoriza sobre o avanço da extrema-direita global.
“Acho que todo o papo de 2013, as revoltas, o crescimento do populismo e da extrema-direita, tudo decorre da desatualização do Estado perante a sociedade. Há um cansaço das pessoas com o capitalismo, que não entregou o que prometia. Por isso que esse negócio de antissistema pega fácil. Eu me considero um liberal pleno. Não esse liberal brasileiro desvirtuado, bolsonarista. Sou mesmo bem de centro. Bah, a gente poderia ficar o dia inteiro conversando sobre isso”, conclui Gabriel, evidenciando sua profundidade analítica e a paixão por debates complexos.
A filiação ao então PMDB ocorreu aos 15 anos, em uma família que, ironicamente, “não gostava de política”. Aos 19, começou a trabalhar com o então deputado federal Eliseu Padilha, que se tornaria seu mentor, e a percorrer o Estado. Em 2005, foi eleito presidente estadual da juventude do partido, e foi durante uma reunião em Independência que conheceu Talise. Cinco anos depois, tornou-se presidente nacional da juventude e tentou seu primeiro mandato para a Assembleia Legislativa, sem sucesso. Em 2012, com a vitória do PMDB na prefeitura de Tramandaí, assumiu uma secretaria na administração municipal.
Em 2014, com consultório montado e negócios prosperando, Gabriel estava determinado a permanecer na política local, mas consultas para que concorresse novamente a deputado começaram a surgir. Foi sua esposa quem o incentivou. “A Talise disse que eu nunca ia ser feliz se ficasse com aquela dúvida, de não saber se me elegia. Ela estava certa. Eu me elegi e daí o resto tu sabes”, relembra Souza. A partir daí, sua ascensão foi meteórica: Sartori o escolheu líder do governo, foi reeleito em 2018 como o mais votado da bancada, presidiu a Assembleia, e, após uma “guerra interna pesadíssima em 2022” no MDB, que ele considera superada, foi indicado para vice na chapa de Eduardo Leite.
Desde então, a preparação para concorrer ao governo tem sido intensa. Sua agenda dupla é pesada, mas ele garante cumpri-la com satisfação. Com ou sem campanha, acorda cedo, às 5h, para fazer um chimarrão e ler, aproveitando o silêncio da madrugada. Em seguida, vai para a academia, uma rotina de treinos que mantém desde 2020 e que considera um lazer e um pilar de bem-estar. Sempre que pode, busca refúgio com a família em Tramandaí, seu “lugar”, onde mantém uma pequena biblioteca em um condomínio na entrada da cidade, para estudar ou se dedicar ao doutorado. Se os roteiros de viagem passam perto de Independência, Talise e Dora o acompanham.
Ao final do encontro, com a mesma calma com que cruza a área do espelho d’água na Redenção, Gabriel reflete sobre a constância em sua vida: o mesmo casamento desde os 21 anos e a permanência no mesmo partido por mais de 30, apesar da efervescência da política brasileira. Com outro sorriso tímido, ele resume: “Sou capricorniano, né?”. Essa frase final encapsula a essência de um político que, em meio à volatilidade do cenário nacional, busca ancorar sua trajetória em princípios de estudo, curiosidade e uma inabalável lealdade aos seus valores e raízes.