Alerta Vermelho Nacional: El Niño Ameaça Mais de 500 Municípios com Risco Crítico de Incêndios até Novembro

Meteorologistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) reforçam que, mesmo com as precipitações recentes, o cenário de risco projetado deve se manter. Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Cemaden, é categórico: as regiões classificadas em “vermelho”, especialmente no Norte do país, onde se concentra o maior número de municípios sob alerta máximo, deverão permanecer nessa condição crítica. A previsão é de que a precipitação continue abaixo da média na Amazônia e que o El Niño atrase o próximo ciclo chuvoso no Centro-Norte, postergando a chegada da seca e elevando o risco de fogo do final de 2026 até o início de 2027.
Diante da iminência de uma crise ambiental, o governo federal tem agido proativamente. No final de agosto, foram realizadas reuniões com gestores municipais e estaduais de todas as regiões para apresentar um robusto pacote de medidas de preparação e prevenção. Entre as ações destacam-se a agilização na liberação de recursos para prevenção e combate a incêndios, o reforço no número de brigadistas federais e a aquisição de equipamentos de combate, incluindo 49 aeronaves. Além disso, o Ibama notificou mais de 10 mil proprietários rurais em áreas críticas da Amazônia, Cerrado e Pantanal, exigindo a implementação de ações preventivas em suas propriedades.
A coordenação dessas iniciativas está a cargo da Sala de Situação do El Niño, um colegiado que reúne 24 ministérios e órgãos dedicados ao acompanhamento das condições climáticas. Em julho, já havia sido anunciado um pacote de R$ 1,3 bilhão para prevenção e resposta aos efeitos do fenômeno. Desse montante, R$ 337 milhões foram destinados especificamente para o combate a incêndios, por meio de uma medida provisória de crédito extraordinário. Houve também um aporte significativo de R$ 521 milhões do Fundo Amazônia, direcionado para equipar os Corpos de Bombeiros de 14 estados.
O compromisso governamental com a questão dos incêndios e do desmatamento tem se traduzido em investimentos crescentes. Desde 2023, o orçamento para controle do desmatamento e combate a incêndios foi ampliado em 138%, com cerca de R 1 bilhão executado em 2026 pelo Ministério do Meio Ambiente, Ibama e ICMBio. O efetivo de brigadistas federais também cresceu, passando de 3.523 em 2023 para 4.410 em julho deste ano, um aumento substancial para enfrentar a complexidade dos desafios.
A partir de 2024, ano marcado por um recorde de incêndios florestais no país, o enfrentamento a essas catástrofes ganhou um novo arcabouço legal com a Polícia Nacional de Manejo Integrado do Fogo. Essa política distribuiu competências entre os entes federativos para prevenção e combate, prevendo a criação de programas de brigadas florestais, planos municipais de prevenção e gestão segura do uso do fogo, entre outras diretrizes. No entanto, um levantamento do Centro Brasil no Clima (CBC) revela que apenas quatro unidades federativas possuem planos de manejo integrado do fogo formalmente aprovados, e a maioria ainda confunde ou substitui a gestão preventiva por instrumentos focados apenas na resposta a emergências.
Nesse contexto, o governo federal tem apoiado os estados da Amazônia Legal na elaboração desses planos e destinou R$ 800 milhões, já em execução, para o Programa União com Municípios. Este programa abrange 80 municípios prioritários da Amazônia, com o objetivo de reduzir o desmatamento e os incêndios florestais. Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), reconhece avanços importantes desde a aprovação da política nacional, especialmente na articulação entre os órgãos responsáveis. Contudo, ela ressalta que a implementação ainda é recente e precisa ganhar escala nos estados e municípios, com orçamentos, equipes e planos territoriais adequados para gerar resultados efetivos.
A realidade no campo já reflete essa preocupação. Em Montividiu, no sudoeste de Goiás, o produtor Erick Van Den Broek, da Fazenda Tropical, relata pequenos focos de queimada em propriedades vizinhas na última semana, felizmente amenizados pela chegada da chuva. O risco de fogo é gerenciado por brigadas voluntárias locais. No Centro-Oeste como um todo, dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (LASA) da UFRJ indicam que a área queimada até o final de agosto deste ano ainda está abaixo da média histórica para o período. Contudo, a possibilidade de o El Niño prolongar o período seco até novembro e dezembro preocupa o produtor, especialmente com o cultivo de soja. O fogo no pré-plantio e a seca no final do ano, durante a floração e o enchimento do grão, podem ser devastadores.
Van Den Broek explica ao GLOBO as consequências: “Tudo se transforma em cinza, não tem palhada para ajudar a proteger o solo. Sem essa camada de matéria orgânica em cima, o solo está mais exposto a altas temperaturas e também à perda de umidade. O risco para a cultura subsequente é maior: vai se desidratar com maior facilidade, pode ter a queima do caule da planta na hora da germinação por excesso de temperatura e como não tem essa proteção, tem seu estresse hídrico com maior facilidade.”
A Fazenda Tropical já sentiu na pele os impactos do fogo. Em 2024, um incêndio de grandes proporções queimou mais de 500 hectares, danificando plantações, armazéns, equipamentos e a reserva legal. A degradação resultante afeta a produtividade e leva anos para ser recuperada. A região, por ser alta e com fortes rajadas de vento, favorece a rápida propagação do fogo, tornando-o difícil de controlar quando combinado com vegetação seca.
Apesar das condições climáticas serem um fator contribuinte, estudos apontam que, no cenário nacional, quase todos os incêndios são iniciados por ação humana, seja intencional ou acidental. Especialistas defendem que controlar esse fator, conhecido como ignição, é crucial para evitar as grandes queimadas. Ane Alencar, pesquisadora do Ipam e membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, lembra que, em áreas privadas, a responsabilidade primária de agir contra incêndios é dos estados, que licenciam atividades que podem envolver queima. O governo federal atua na coordenação, suporte aos Corpos de Bombeiros e combate a grandes incêndios, além de ser diretamente responsável pelo fogo em Unidades de Conservação federais. A criação de brigadas voluntárias privadas é vista como essencial para a prevenção e a primeira resposta.
Alencar enfatiza o papel central do setor produtivo na consolidação da prevenção no país. Isso inclui o acompanhamento das condições meteorológicas, o respeito aos períodos de proibição do fogo, a manutenção de aceiros, o cuidado para que áreas vulneráveis fiquem longe de fontes de ignição, a proteção das reservas legais e a restauração de áreas degradadas. “Precisamos engajar o máximo de pessoas possível para que o primeiro combate seja feito e trabalhar estratégias de prevenção, para que não tenha que chegar no combate”, afirma Tavares.
O fazendeiro de Montividiu (GO), Erick Van Den Broek, observa que a conscientização sobre a importância dessas práticas tem crescido entre os produtores da região. Segundo ele, a organização entre eles tem sido eficaz para conter focos, com a manutenção de brigadas terrestres e aéreas, em grande parte com recursos privados. Eles recebem algum apoio do município de Rio Verde, que possui maior orçamento e está a 50 km de distância de Montividiu. “Vejo que (desde 2024) teve maior união entre os produtores e velocidade de resolução quando oco”, conclui Van Den Broek, destacando a importância da colaboração local para enfrentar o desafio dos incêndios.