Crise no STF Aprofunda Temores na Campanha de Flávio Bolsonaro Diante de Investigações de Moraes e Dino

A campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta uma crescente apreensão diante da escalada de tensões no Supremo Tribunal Federal (STF), que culminou na decisão do ministro André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ontem, 8 de setembro de 2026. Aliados do candidato temem que investigações conduzidas pelos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, envolvendo desde o financiamento do controverso filme “Dark Horse” até supostas irregularidades em emendas parlamentares e a atuação de milícias no Rio de Janeiro, possam gerar impactos políticos e jurídicos significativos sobre sua candidatura à Presidência da República, em um cenário de intensa polarização e embate institucional.
A avaliação interna da campanha ganhou força após a medida de Mendonça, que adicionou mais um capítulo à crise entre os membros da mais alta corte do país. Embora, até o momento, não haja informações sobre decisões diretas dos ministros Moraes ou Dino contra Flávio Bolsonaro ou sua candidatura, o receio reside nos potenciais desdobramentos de inquéritos já em curso. As preocupações se concentram em duas frentes principais: a investigação conhecida como “Dark Horse”, que apura o financiamento de um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental das Favelas (ADPF das Favelas), que se desdobra em apurações sobre lavagem de dinheiro, milícias e a infiltração do crime organizado no poder público fluminense.
O Enigma de “Dark Horse”: Financiamento e Custos Sob Escrutínio
No centro das preocupações da campanha de Flávio Bolsonaro está a investigação sobre o filme “Dark Horse”. A obra, que narra a trajetória de Jair Bolsonaro, é produzida pela Go Up Entertainment e tem sua estreia prevista apenas para depois das eleições. A empresa pertence à jornalista Karina Gama, que, segundo relatos, expressou preocupação a interlocutores com o agravamento da crise institucional. Os aliados de Flávio Bolsonaro consideram a possibilidade de medidas drásticas, como busca e apreensão na produtora e quebra de sigilos, e até mesmo mencionam, sem que haja qualquer indicação de ordem judicial expedida, o risco de prisão da jornalista.
O caso ganhou maior repercussão após a publicação de mensagens pelo Intercept Brasil, nas quais Flávio Bolsonaro teria cobrado recursos do proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro. O dinheiro, conforme a reportagem mencionada, seria destinado ao financiamento do filme. Em agosto de 2026, a Polícia Federal solicitou à Go Up Entertainment explicações detalhadas sobre os aspectos financeiros, contratuais e operacionais da produção. A produtora respondeu na última sexta-feira, 4 de setembro de 2026, encaminhando milhares de documentos distribuídos em 17 arquivos digitais.
Uma perícia particular, encomendada pela própria Go Up Entertainment, estimou o custo total de “Dark Horse” em US$ 13,39 milhões, o equivalente a R$ 75,18 milhões, utilizando a cotação presente no laudo do perito Anísio Costa Castelo Branco. O documento indica que, das cinco etapas de produção, apenas as filmagens foram executadas no Brasil, enquanto as demais teriam ocorrido nos Estados Unidos, destino de 72% dos gastos declarados. Os 28% restantes teriam sido desembolsados em território brasileiro. Contudo, o laudo, embora mencione ter examinado extratos bancários e despesas detalhadas, não incluiu esses documentos como anexos, conforme apurado. A ausência desses comprovantes e o elevado custo declarado provocaram questionamentos no setor audiovisual, levantando dúvidas sobre a transparência da operação financeira.
Rio de Janeiro: O Epicentro das Apurações e o Calcanhar de Aquiles Político
O estado do Rio de Janeiro concentra parte relevante da apreensão política da campanha. Além de ser o terceiro maior colégio eleitoral do país, o Rio representa o principal reduto eleitoral da família Bolsonaro. Uma operação contra pessoas próximas ao senador, avaliam membros da campanha, poderia gerar um desgaste significativo justamente onde o grupo construiu sua trajetória política e eleitoral. As investigações conduzidas pelo ministro Alexandre de Moraes no estado são multifacetadas e abrangem diversas áreas sensíveis.
Moraes já autorizou uma operação para investigar suspeitas de fraude e sonegação fiscal no setor de combustíveis no Rio de Janeiro. Além disso, determinou a abertura de uma apuração sobre a lavagem de recursos por facções e milícias, bem como a possível presença de organizações criminosas em estruturas do poder público fluminense. Essas frentes de investigação, por sua natureza, tocam em pontos nevrálgicos da política e da economia local, com potencial para atingir figuras e grupos com os quais a família Bolsonaro mantém laços.
Aliados Sob Pressão: O Caso Cláudio Castro e os Relatórios da PF
Na semana passada, entre 1 e 7 de setembro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes retirou o sigilo de documentos que expuseram informações sobre telefonemas e negociações atribuídos ao ex-governador Cláudio Castro, um aliado político de Flávio Bolsonaro. A divulgação dessas informações foi interpretada na campanha como um indicativo dos potenciais efeitos das investigações sobre o grupo político do senador. Outro episódio que gerou inquietação envolveu o próprio Cláudio Castro, quando Moraes autorizou a divulgação de um relatório da Polícia Federal. Este relatório detalhava que o ex-governador recebeu uma degustação de caviar em um hotel de luxo de São Paulo, em abril de 2026. A despesa teria sido paga por um advogado que trabalhou como assessor do ex-deputado Domingos Brazão e que é investigado por uma suposta ligação com o empresário Ricardo Magro, da Refit. Essa informação passou a integrar o conjunto de apurações que inquietam os aliados de Flávio Bolsonaro, diante do temor de que a crise interna do STF alcance o núcleo político e eleitoral do senador.
Em meio a esse cenário de tensão, Flávio Bolsonaro fez acusações diretas. Na quinta-feira, 3 de setembro de 2026, anterior ao afastamento do diretor-geral da PF, o senador afirmou que Moraes, Dino e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), estariam preparando uma ação contra ele, condicionando a acusação à confirmação das informações. A reportagem apurou que Moraes esteve reunido durante três horas com Alcolumbre na residência do senador, no Lago Sul, em Brasília, antes de avançar em sua reação contra Mendonça. Relatórios de inteligência usados na decisão de Moraes apontaram Alcolumbre como um dos “prováveis alvos” de possível direcionamento de investigação por Mendonça. Contudo, os documentos, segundo a própria coluna, são apócrifos, não apresentam provas e registram que “qualquer uso externo” de seu conteúdo seria prematuro, adicionando uma camada de complexidade e incerteza ao panorama político.
Previsões de Intensificação do Conflito
Internamente, a equipe eleitoral de Flávio Bolsonaro espera uma resposta do Supremo à ofensiva de Mendonça. Um aliado, que preferiu não ser identificado, acusou Moraes de utilizar instrumentos de investigação para responder a adversários, sem apresentar provas públicas dessa afirmação. Outro interlocutor ouvido indicou que o embate entre Mendonça e Dino deve se intensificar. “Mendonça e Dino vão dobrar a aposta. Vem coisa por aí”, previu, sinalizando que a crise institucional no STF está longe de um desfecho e que seus reflexos podem continuar a moldar o cenário político e eleitoral brasileiro nos próximos meses, mantendo a campanha de Flávio Bolsonaro em estado de alerta máximo.