US Open 2026: O Choque entre Espetáculo Moderno e a Tradição do Tênis

O US Open de 2026, tradicionalmente reconhecido como o Grand Slam mais vibrante e barulhento do circuito, encontra-se no epicentro de uma controvérsia sem precedentes. No USTA Billie Jean King National Tennis Center, em Queens, Nova York, jogadores de elite, incluindo Adrian Mannarino, Aryna Sabalenka e Naomi Osaka, têm expressado veementes críticas ao comportamento disruptivo de espectadores, intensificado pela presença massiva de influenciadores digitais e pelo perceptível cheiro de maconha nas quadras. A busca do torneio por popularizar o tênis nos Estados Unidos, ao credenciar cerca de cem criadores de conteúdo, colide diretamente com as normas de conduta esperadas em um evento esportivo de tal magnitude, transformando o ambiente em algo que o próprio Mannarino descreveu como “um zoológico”.
A “Zoológico” em Quadra: Relatos dos Atletas
A reputação do US Open como o Grand Slam mais barulhento não é novidade, mas a edição de 2026 parece ter levado a indisciplina dos espectadores a um novo patamar. O burburinho constante, o movimento incessante durante os pontos e o consumo do coquetel “Honey Deuce” já eram características marcantes, mas agora, a situação se agravou. O tenista francês Adrian Mannarino, após sua derrota na segunda rodada, não poupou palavras ao descrever o cenário: “As coisas estão mudando, o público pode se mover durante os pontos. Cheira a maconha nas quadras. Há barulho por toda parte, na verdade está se tornando um pouco um zoológico”. Sua declaração ecoa um sentimento crescente de frustração entre os atletas.
A número 1 do mundo, Aryna Sabalenka, corroborou as queixas, revelando ter sido perturbada pelo forte cheiro de maconha que invadia a quadra durante uma de suas partidas. Esses relatos não são isolados. Incidentes pontuais, como o ocorrido durante o jogo entre Gael Monfils e Learner Tien, onde uma influenciadora se aproximou da quadra em pleno jogo para tirar uma foto com uma camiseta de marca, antes de retornar ao seu assento, foram observados por jornalistas da AFP. Tais comportamentos, impensáveis em outros Grand Slams, tornaram-se uma constante em Queens, levantando sérias questões sobre o respeito ao esporte e aos competidores.
A Estratégia dos Influenciadores e Suas Consequências
A proliferação de incidentes disruptivos está intrinsecamente ligada à estratégia dos organizadores do US Open de abraçar a cultura dos influenciadores digitais. Desde o ano passado, o torneio tem colaborado ativamente com esses criadores de conteúdo, credenciando cerca de cem deles nesta edição. O objetivo declarado é louvável: popularizar o tênis nos Estados Unidos, atraindo um novo público, mais acostumado ao dinamismo e à interatividade dos espetáculos americanos. No entanto, essa abertura tem gerado um choque cultural significativo.
A partida entre a japonesa Naomi Osaka e a russa Anastasia Zakharova na quadra Arthur Ashe foi um exemplo claro das consequências dessa estratégia. O árbitro francês Kader Nouni foi obrigado a interromper o jogo devido a espectadores em um camarote que utilizavam anéis de luz e tiravam fotos e vídeos com flash durante um ponto – ferramentas comuns no universo dos influenciadores. Osaka, ex-número 1 do ranking, explicou: “Normalmente não presto atenção, mas desta vez houve um momento em que essas pessoas gritavam e podiam ser ouvidas muito claramente. Acho que também incomodou minha adversária”. A busca por engajamento digital e a criação de conteúdo para redes sociais parecem estar se sobrepondo à experiência do jogo ao vivo, comprometendo a concentração dos atletas e a integridade da competição.
O Dilema da Modernização: US Open vs. Wimbledon
Diante da crescente polêmica, o US Open se vê em uma encruzilhada entre a modernização e a preservação da tradição. Brendan McIntyre, porta-voz do torneio, assegurou à AFP que, embora desejem que todos os fãs tenham uma experiência extraordinária, é fundamental “garantir que não perturbem o andamento do jogo e a competição na pista”. Em resposta às críticas, o torneio reforçou a sinalização no recinto e nos estádios, além de enviar mensagens aos portadores de ingressos e camarotes, lembrando a todos que se abstenham de atividades que possam perturbar a partida, como ruído excessivo, uso de flash e anéis de luz.
Essa postura contrasta drasticamente com a de Wimbledon, o torneio mais tradicional do tênis e o terceiro Grand Slam no calendário. Enquanto o US Open abraça os influenciadores, Wimbledon os rejeita. Segundo o “Yahoo!”, o Grand Slam britânico, conhecido por suas regras rígidas – como a exigência de que os jogadores atuem apenas com roupas brancas – já afirmou que não irá criar um modelo de credenciamento específico para influenciadores. Essa diferença de abordagem sublinha um debate maior no mundo do tênis: como equilibrar a necessidade de atrair novas gerações e públicos com a manutenção das normas de respeito e silêncio que são parte intrínseca da cultura do esporte.
O Apelo por Convivência: A Voz dos Campeões
Algumas das maiores estrelas do circuito, como a número 4 do mundo Coco Gauff, campeã em Nova York no ano passado, expressam uma visão mais matizada. Gauff se mostra encantada com a presença desse novo público, reconhecendo a importância de expandir a base de fãs do tênis. No entanto, ela enfatiza a necessidade de adotar normas básicas de convivência. “É como tudo, você não vai a um tapete vermelho de jeans. Simplesmente é preciso respeitar os costumes próprios deste esporte. Provavelmente já assistiram a jogos de basquete, mas às vezes é seu primeiro jogo de tênis. Nada de flash nem vídeos de TikTok durante os pontos, tentar não falar muito alto”, declarou a tenista americana de 22 anos. Sua fala ressalta a importância da educação do novo público sobre a etiqueta específica do tênis, que difere de outros espetáculos esportivos.
Sua compatriota Jessica Pegula, atual número 3 da WTA e finalista do US Open em 2024, oferece uma perspectiva que enraíza o caos na própria identidade da cidade-sede. Ela assegura que o que acontece “é muito representativo de Nova York: é caótico e tudo vai em todas as direções”. Pegula, contudo, mantém uma nota de otimismo, acreditando que a situação pode melhorar com o tempo. “Quanto mais forem ao estádio e mais jogos assistirem, mais aprenderão esses costumes. De qualquer forma, dada a atenção que o tema recebeu, podemos esperar que a partir de agora estejam informados”, acrescentou. A expectativa é que a visibilidade do problema leve a uma maior conscientização e, consequentemente, a uma melhoria no comportamento dos espectadores nas futuras edições.
O Futuro da Etiqueta no Tênis
A controvérsia no US Open 2026 não é apenas um problema pontual de comportamento, mas um sintoma de uma transformação mais ampla no consumo de esportes e entretenimento. A era digital trouxe consigo novas formas de interação e participação, e os eventos esportivos, para se manterem relevantes, buscam se adaptar. No entanto, o tênis, com sua rica história e suas tradições de silêncio e respeito durante os pontos, enfrenta um desafio particular. A linha entre popularização e profanação é tênue, e o US Open está atualmente testando os limites dessa fronteira.
A questão que se impõe é se os Grand Slams conseguirão encontrar um equilíbrio que permita atrair um público mais jovem e diversificado sem comprometer a essência do esporte. A experiência de 2026 em Nova York servirá como um estudo de caso crucial para o futuro do tênis profissional. A capacidade de educar os novos fãs, de reforçar as regras de conduta sem alienar o público e de manter a atmosfera que torna o tênis um esporte único será determinante para a longevidade e o prestígio dos grandes torneios. O “zoológico” de Mannarino pode ser uma fase de transição dolorosa, mas a esperança é que, ao final, o tênis encontre um novo modelo de convivência que honre tanto sua tradição quanto sua aspiração de ser um esporte para todos.