PF Revela Rede de Influência: Fábio Faria Intermediou Contatos e Contrato Milionário entre Vorcaro e Ministro Moraes

Relatórios detalhados da Polícia Federal (PF) revelam que o ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro, Fábio Faria, desempenhou um papel central na intermediação de contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. A investigação aponta que, entre o final de 2023 e meados de 2024, Faria não apenas organizou encontros e compartilhou dados de contato, mas também acompanhou de perto as tratativas de um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master, de Vorcaro, e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, evidenciando uma complexa teia de influência e acesso.
A Teia de Conexões: Do Primeiro Contato ao Almoço VIP
A atuação de Fábio Faria, conforme as mensagens analisadas pelos investigadores, foi recorrente e estratégica para estreitar a relação entre Vorcaro e Moraes. O primeiro registro significativo data de 21 de dezembro de 2023, quando Faria participou ativamente da logística de uma reunião entre o banqueiro e o ministro. Após o encontro, um áudio enviado por Faria a Vorcaro indicava que Moraes “gostou da conversa” e já manifestava interesse em um “próximo passo”.
Apenas cinco dias depois, em 26 de dezembro de 2023, Faria forneceu a Vorcaro os dados de contato telefônico do ministro, solidificando o canal direto. A intermediação não parou por aí. No dia seguinte, uma mensagem de Faria anunciava: “Alex quer ir almoçar lá no dia 30”. A referência, segundo a PF, era ao Six Senses Botanique, um luxuoso hotel na região de Campos do Jordão, de propriedade de Vorcaro. O banqueiro, então, mobilizou sua equipe para preparar uma “experiência completa” para “convidados ultra vips”, incluindo almoço com chef particular, passeios a cavalo e assistência dedicada.
Além desses encontros, a PF identificou que Faria organizou outros eventos sociais, como jantares que incluíam as respectivas esposas, e reuniões em residências particulares. Em abril de 2024, o ex-ministro chegou a encaminhar mensagens relacionadas a encontros na própria casa de Moraes, demonstrando a profundidade de sua atuação na agenda pessoal e social dos envolvidos.
O Contrato Milionário: R$ 3 Milhões Mensais e a Pressão por Pagamento
Um dos pontos mais sensíveis da investigação é o acompanhamento de Fábio Faria às tratativas do contrato de R$ 130 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, de Viviane Barci de Moraes. As conversas, que se estenderam por janeiro e março de 2024, revelam a atenção do ex-ministro aos detalhes financeiros.
Em 11 de janeiro de 2024, Viviane encaminhou a Vorcaro uma minuta do contrato de prestação de serviços jurídicos. Quatro dias depois, após Vorcaro devolver o documento com revisões de seus advogados, Faria questionou sobre o prazo negociado: “Fechou 3 anos?”. A resposta indicava que o acordo inicial era de quatro anos, mas poderia ser ajustado para três. A versão final estabeleceu 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório, totalizando R$ 108 milhões, e foi assinada em 23 de janeiro de 2024. Este contrato, no entanto, foi interrompido após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central e a prisão de Vorcaro em novembro de 2024.
A PF também fez uma descoberta crucial nos metadados de duas versões da minuta do contrato: o responsável pela última modificação era um usuário denominado “Ministro Alexandre de Moraes”. Este detalhe sugere um envolvimento direto do ministro na revisão do documento, levantando questionamentos sobre a ética e a transparência da negociação.
A preocupação com os pagamentos era evidente. Em 15 de março de 2024, Faria alertou Vorcaro em uma mensagem sobre a pontualidade: “O careca não pode atrasar.” O banqueiro, por sua vez, cobrou sua equipe financeira, classificando a despesa como “o contrato mais importante que temos”, sublinhando a relevância estratégica do acordo para seus interesses.
Fórum em Londres e o Veto de Moraes
A intermediação de Fábio Faria se estendeu à organização de eventos de grande porte, como o I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, patrocinado pelo Banco Master e realizado na capital britânica entre 24 e 27 de abril de 2024. Em 18 de abril, Faria e Vorcaro discutiram a participação de um indivíduo que, segundo ambos, havia sido vetado por Moraes. “Mas eu acho que Alexandre gosta que ele saiba que ele vetou. Ego dele”, disse o ex-ministro, ao que Vorcaro respondeu: “No final ele vetou mesmo, ficou claro.” Essa conversa expõe a influência de Moraes na seleção de participantes de eventos patrocinados pelo banco.
Faria também atuou nas tratativas para convidar Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, para o fórum em Londres. Ele conversou com outros interlocutores sobre a participação de Rodrigues e, posteriormente, repassou informações a Vorcaro sobre como o convite deveria ser formalizado pelo Banco Master, indicando sua capacidade de articular a presença de autoridades em eventos de interesse do banqueiro.
Busca por Informações e as Implicações da Investigação
A investigação da PF também revelou situações em que Daniel Vorcaro recorreu a Fábio Faria para tentar obter informações de Alexandre de Moraes sobre reportagens que poderiam ser publicadas pela imprensa. Essa busca por antecipação de notícias demonstra a profundidade da rede de acesso que Vorcaro buscava construir e a confiança na capacidade de Faria de intermediar até mesmo informações sensíveis.
Os relatórios da Polícia Federal pintam um quadro de intensa articulação e proximidade entre figuras do alto escalão político, do judiciário e do setor financeiro. A atuação de Fábio Faria como um elo facilitador entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, abrangendo desde encontros sociais e a gestão de um contrato milionário até a organização de eventos internacionais e a busca por informações privilegiadas, levanta sérias questões sobre os limites da influência, a transparência nas relações entre o público e o privado, e as implicações para a integridade das instituições. A investigação segue em curso, e os desdobramentos prometem continuar a expor a complexidade dessas interações no cenário político e jurídico brasileiro.