Delação de “Mineiro” Aprofunda Crise do Filme “Dark Horse” e Expõe Rota de Dinheiro Ligada a Eduardo Bolsonaro

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A Procuradoria-Geral da República (PGR) homologou um acordo de colaboração premiada com o operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, intensificando as investigações sobre o financiamento de “Dark Horse”, o polêmico filme que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A delação de Freixo, dono da Entre Investimentos e Participações, revela detalhes cruciais sobre os repasses de dinheiro entre o banqueiro Daniel Vorcaro e a produção do longa-metragem, apontando para um esquema complexo que levanta suspeitas de desvio de fundos para custear despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro no exterior.

O acordo de Freixo Júnior, que não está sob custódia nem usa tornozeleira eletrônica, já foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator do caso, para análise e possível homologação. A expectativa é que a colaboração de “Mineiro” forneça subsídios para uma cooperação bilateral com autoridades norte-americanas, visando obter registros da movimentação do fundo Havengate, sediado no Texas, Estados Unidos, e administrado por Paulo Calixto, advogado de imigração próximo a Eduardo Bolsonaro. A principal linha de investigação da Polícia Federal (PF) e da PGR é determinar se os valores fornecidos por Vorcaro foram integralmente destinados ao filme ou se parte deles foi desviada para cobrir gastos pessoais do filho 03 do ex-presidente.

A delação de Freixo é a segunda no âmbito do “Caso Master”, que já havia recebido a proposta de colaboração de João Carlos Mansur, proprietário da gestora Reag. A Reag, por sua vez, administrava os fundos utilizados por Vorcaro para ocultar dinheiro, adicionando camadas de complexidade à teia financeira. A Entre Investimentos, empresa de Freixo, é controladora da revista IstoÉ e da Entrepay, que sofreu liquidação extrajudicial pelo Banco Central em março deste ano. Em janeiro de 2026, a Entre já havia sido alvo de busca e apreensão no bojo das investigações do “Caso Master”, evidenciando o envolvimento profundo da companhia nas operações financeiras sob escrutínio.

Nos anexos entregues aos investigadores, Freixo Júnior detalhou remessas feitas ao exterior para o fundo Havengate a pedido de Vorcaro. Essas transações se tornaram um ponto central de desgaste na campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Mensagens anteriores, reveladas pela imprensa, mostravam o filho 01 de Jair Bolsonaro cobrando dinheiro de Vorcaro, supostamente para a produção do filme. A versão de Flávio, que em entrevista à Globonews afirmou que os repasses haviam cessado em maio de 2025, foi desmentida pela delação de Freixo, que apontou pagamentos da Entre para o Havengate até 16 de setembro de 2025, apenas dois meses antes da prisão de Vorcaro por decisão da Justiça Federal de Brasília.

Além das remessas internacionais, Freixo Júnior também descreveu diversas entregas de dinheiro vivo, em malas, realizadas a pedido de Vorcaro. O empresário forneceu os endereços onde essas entregas ocorreram, mas alegou aos investigadores que não tinha ciência do que seria feito com as quantias posteriormente, nem citou autoridades com foro privilegiado em seu depoimento. A defesa de Freixo Júnior, procurada, informou que não se manifestaria devido ao sigilo da apuração.

A controvérsia em torno do financiamento de “Dark Horse” ganhou força após uma série de reportagens do The Intercept Brasil, que descreveram um acerto de R$ 134 milhões entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para o financiamento da obra, com a Entre Investimentos atuando como intermediária. Diante das revelações, Flávio Bolsonaro prometeu apresentar uma prestação de contas em 30 dias, o que não ocorreu. O candidato do PL alegou que a produtora do filme, Go Up Entertainment, apresentou uma perícia privada e tentou considerar o assunto como “página virada”, uma posição que está longe de ser aceita pelos investigadores e pela opinião pública.

A perícia privada encomendada pela Go Up Entertainment, embora tenha constatado que 72% dos gastos com a produção ocorreram nos Estados Unidos – mesmo com o filme sendo rodado no Brasil –, gerou grande estranhamento no setor. Profissionais ouvidos pelo blog consideraram os gastos nas etapas iniciais do projeto, especialmente na fase de pré-produção, como “estratosféricos”. Essa discrepância nos custos e a localização dos gastos reforçam as suspeitas sobre a real destinação dos recursos.

Informações das declarações de Imposto de Renda do Banco Master, compartilhadas com a CPI do Crime Organizado, revelaram que o banco pagou diretamente à Entre Investimentos R$ 2,329 milhões em 2025. O repórter Breno Pires, da revista piauí, já havia revelado que foram feitos ao menos sete pagamentos da Entre para o Havengate, incluindo o de setembro de 2025, que contradiz a versão de Flávio Bolsonaro.

As mensagens trocadas em janeiro de 2025 entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, apontado pelos investigadores como seu operador financeiro, também são peças-chave. Nelas, o CEO do Banco Master reclama de atrasos nos pagamentos das parcelas para o filme de Bolsonaro. Zettel, por sua vez, relata entraves para concluir os repasses, que seriam feitos em dólar por meio de remessas internacionais. Vorcaro, então, orienta o cunhado a realizar o pagamento por meio da Entre Investimentos. Dias depois, Zettel pergunta se poderia “pedir pro Minas” – uma clara referência a Freixo Júnior, salvo no celular de Vorcaro como “Mineiro”. Pouco tempo depois, Zettel envia um comprovante do repasse de US$ 2 milhões para um fundo ligado à produção do filme pela Entre Investimentos.

O caso “Dark Horse” também se entrelaça com outras investigações e figuras proeminentes. Daniel Vorcaro, em suas mensagens, chegou a pedir proteção a Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), e revelou uma rotina de reuniões com ele. Curiosamente, Moraes determinou a exclusão automática de mensagens de Vorcaro dois meses antes de sua prisão. O uso de uma decisão do STF que anulou um processo julgado por Moro, por parte do procurador-geral Paulo Gonet, para “blindar” Moraes, também foi notado, adicionando mais um elemento de tensão ao cenário político e jurídico.

Enquanto a Ancine (Agência Nacional do Cinema) informou à PF que o filme “Dark Horse” ainda precisa cumprir etapas para ser lançado no Brasil, a disputa sangrenta entre Mendonça e a PF sobre o caso é vista como um fator que pode definir os rumos da eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro. A complexidade das operações financeiras, as contradições nas versões apresentadas e a proximidade com figuras políticas de alto escalão tornam a investigação do financiamento de “Dark Horse” um dos pontos mais sensíveis e observados da política brasileira atual, com potenciais desdobramentos que podem impactar profundamente o cenário eleitoral e a credibilidade de importantes atores públicos.

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