Divórcio Bilionário: Azzas 2154 Se Divide, Arezzo&Co e Soma Seguem Caminhos Separados e Farm Rio Vira Entidade Conjunta

Em um desfecho aguardado e de alto impacto para o mercado de moda brasileiro, o conglomerado Azzas 2154 anunciou oficialmente nesta quarta-feira, 02 de setembro de 2026, o fim de sua união, selando o divórcio entre os empresários Alexandre Birman e Roberto Jatahy após mais de um ano de intensas disputas no alto comando. A gigante da moda será desmembrada em três operações distintas, com Arezzo&Co e Soma se tornando companhias independentes e com ações listadas em Bolsa, enquanto a cobiçada marca Farm Rio passará a ser uma sociedade específica com participação de ambas as partes. A decisão, que visa encerrar controvérsias e permitir maior autonomia estratégica, já provocou movimentações significativas na Bolsa de Valores, com as ações do grupo saltando 13,8% após a suspensão para leilão, embora o valor de mercado atual da companhia represente menos de um terço do patamar alcançado na fusão de 2024.
A reorganização societária, que vinha sendo antecipada por fontes do mercado, marca o fim de um “casamento” empresarial que prometia sinergias e ganhos exponenciais, mas que, na prática, foi minado por “diferentes visões sobre a estrutura societária, a governança e os caminhos estratégicos”, conforme comunicado da própria Azzas 2154. A fusão, concretizada em agosto de 2024, havia dado origem a uma potência com 34 marcas e uma avaliação de R$ 10 bilhões. Hoje, a companhia vale R$ 3,54 bilhões na Bolsa, refletindo uma queda acumulada de 32,45% no ano.
A complexa divisão estabelece que Alexandre Birman, CEO do Azzas 2154, assumirá o controle da Arezzo&Co, que reunirá as marcas de bolsas e calçados, o ZZ Mall e, surpreendentemente, a Hering, que originalmente pertencia ao portfólio do Soma. Por sua vez, Roberto Jatahy, CEO da unidade de negócios de Moda e Lifestyle do Azzas, ficará sob o chapéu do Soma, que concentrará o vestuário feminino e masculino premium, incluindo a Reserva, que antes integrava a Arezzo. A exceção notável é a Farm Rio, o principal motor de vendas e resultados do grupo, que será desmembrada em uma nova sociedade, com a Arezzo&Co detendo 57,4% e o Soma 42,6%.

O comunicado da companhia enfatiza que a solução encontrada “preserva o valor construído, encerra as controvérsias existentes e cria condições para que cada conjunto de negócios desenvolva plenamente seu potencial”. A autonomia decisória é o foco principal, visando acelerar o crescimento operacional, os resultados e a geração de caixa das novas empresas. Alexandre Birman reconheceu as dificuldades do processo, afirmando que “conseguimos transformar essas diferenças em uma solução empresarial que preserva o valor construído e cria condições para que cada negócio siga seu caminho com maior foco, autonomia e responsabilidade”.
Roberto Jatahy ecoou o sentimento, destacando que a solução “respeita o trabalho construído até aqui, reconhece as características próprias dos diferentes negócios e cria uma base clara para o futuro”. Ele também reforçou a permanência como sócios na Farm Rio, uma marca que, segundo ele, possui uma “importante avenida de crescimento” no Brasil e internacionalmente. A separação da Farm Rio, aliás, teria sido um pedido direto de seus fundadores, Katia e Marcello Bastos, segundo fontes próximas às negociações.
As Raízes da Disputa e o Caminho para a Separação
Apesar da promessa de um futuro próspero com a fusão de 2024, que resultou na Arezzo detendo 54% do novo negócio e o Soma 46%, as sinergias esperadas não se concretizaram. Fontes próximas ao grupo apontam que a principal razão para o insucesso reside em diferenças irreconciliáveis entre Birman e Jatahy. A tensão escalou em abril deste ano, com a saída de Ruy Kameyama, então CEO de Moda e Lifestyle, que atuava como mediador entre os dois empresários. Após sua partida, Jatahy chegou a acionar a Justiça contra Birman, alegando interferência em áreas sob sua gestão.
As rusgas no comando tiveram um impacto direto e negativo sobre o desempenho das ações da companhia, que viram seu valor despencar. As discussões foram levadas à arbitragem, um processo que agora será extinto graças ao acordo vinculante selado. A reorganização, segundo a Azzas 2154, parte de uma “convicção comum: a próxima etapa de desenvolvimento dos negócios exige maior foco, autonomia de gestão, clareza de responsabilidades e disciplina na alocação de capital”.

Estrutura da Redivisão e Próximos Passos
O acordo atual não apenas põe fim às controvérsias legais entre Birman e Jatahy, que se comprometeram a extinguir o procedimento arbitral e a medida cautelar em curso, mas também estabelece que não haverá mais litígios relacionados a fatos ocorridos antes desta decisão de redividir a companhia. A redivisão do Azzas será executada em duas etapas. Primeiramente, ocorrerá a separação das marcas entre Arezzo&Co e Soma. Em seguida, haverá uma troca de ações entre os acionistas dessas duas novas empresas.
Uma vez concluído esse processo, o Soma terá 25,95% de suas ações nas mãos de Jatahy e seus sócios, com um adicional de 6,18% pertencente ao bloco da família Birman. Na Arezzo&Co, a família fundadora deterá 32,13%, marcando o desembarque de Jatahy da estrutura acionária principal. Os 67,87% restantes de cada uma das novas companhias serão detidos pelos demais sócios e investidores. Cada acionista do Azzas receberá ações emitidas pelas duas novas companhias em cotas proporcionais à participação que detém atualmente no grupo consolidado.
A operação, no entanto, ainda depende de aprovação por órgãos reguladores, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a B3, a bolsa de valores brasileira. A perspectiva é que, após o cumprimento de todas as exigências legais e regulatórias, a conclusão da operação ocorra no primeiro trimestre de 2027. Até lá, a operação do grupo Azzas 2154 seguirá regularmente, mantendo a expectativa do mercado sobre os desdobramentos dessa que é uma das mais significativas reestruturações empresariais do setor de moda no Brasil nos últimos anos.